segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Mais Trabalho



O texto referente a Marta e Maria pode confundir-nos e creio que, de fato, já terá dado origem a equívocos. À primeira vista parece que a argumentação de Jesus se concentre no contraste entre a imobilidade, a atitude absorta de Maria e a agitação de Marta. O mundo grego que foi o primeiro a receber o evangelho, estava profundamente marcado pelo dualismo espírito-carne, mundo - além-mundo, trabalho manual-contemplação intelectual, e viu neste epísódio duas personagens antagônicas: a escrava e a livre, a pessoa digna deste nome a subpessoa, aquela que não conseguiu realizar-se. Para o mundo grego de então, a contemplação, entendida como o olhar agudo, pentrante, prolongado, que se assenhoreia da realidade global do objeto contemplado, era a única atividade verdadeiramente digna do homem. Os trabalhos pesados, braçais, eram reservados aos escravos, aos sub-homens. O mundo grego jamais compreenderá, em toda sua profundeza, a imagem de Deus como um humilde oleiro que, com suas mãos habilíssimas, modela sua imagem e semelhança, que é o homem. Da mesma forma, jamais compreenderá "Deus que repousa" como um trabalhador que se extenuou pelo trabalho físico. Um leitor de cultura grega é levado a colher o episódio como imobilidade de Maria e azáfama de Marta.

Parece-me (ao autor) mais razoável colocar o centro do episódio no ouvir de Maria, no interesse que ela tem pelas palavras de Jesus. "Maria ficou sentada aos pés do Senhor, escutando-lhe a palavra". Infelizmente a narração do episódio na casa de Marta caiu nas "mãos dos gregos", que tiraram dela uma confirmação para a sua tese: "Vede, ficar à toa, como Maria, é o que todo mundo deve fazer; esta atividade contemplativa é a mais importante, a única realmente importante. A ocupação de Marta é de importância secundária". Insistimos, entretanto, em que o centro do episódio não é a imobilidade ou o êxtase de Maria, mas o interesse em ouvir a palavra de Deus.



Trechos extraídos do livro Alguém me Tocou do teólogo Arturo Paoli, Edições Paulinas, 2ª Edição, Título Original Contemplazione, Tradução Benôni Lemos.






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